Porque eu aprovo a gestão do prefeito Fernando Haddad

Meu respeito e credibilidade ao prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) começaram num momento de muita revolta para nós, ciclistas.

Passeata ate a casa do prefeito em 17/03.

Passeata ate a casa do prefeito em 17/03.

O ciclista David dos Santos tinha sido atropelado pelo estudante de psicologia Alex Siwek na Av. Paulista e seu braço jogado num córrego da cidade, num ato completamente frio, incompreensível e inaceitável. No domingo seguinte – de muita chuva, diga-se de passagem – caminhamos  até o prédio em que mora o prefeito, colocamos as bicicletas no chão e fechamos a rua, até que seu filho desceu e veio conversar conosco. Disse que era domingo, que seu pai não podia nos atender ali, mas que ia marcar uma reunião com alguns representantes do movimento naquela semana.

Manifestação pedindo segurança no trânsito, depois do atropelamento de David dos Santos na av. Paulista.

Manifestação pedindo segurança no trânsito, depois do atropelamento de David dos Santos na av. Paulista.

Assim foi feito. Na sexta-feira seguinte, as 6h da manhã, um grupo de 12 pessoas foi recebido no gabinete da prefeitura. Dessa reunião saiu a promessa dos 400km de ciclovia na cidade e de campanha de educação e respeito no trânsito.

Novamente assim foi feito. Durante a preparação da campanha, ciclistas foram consultados, tanto para o texto dos vídeos, como fomos chamados para testes de VT e alguns de nós encabeçamos os filmes.

Foi uma campanha verdadeira, feita com pessoas que pedalam de verdade, com pessoas que defendem o uso da bicicleta na cidade. Não foi feita com atores ou modelos. Nosso discurso foi respeitado. Um exemplo disso: o Código de Transito Brasileiro diz para o ciclista pedalar nos bordos da pista, dando a entender que ele deve pedalar no cantinho, quase na sargeta, modo incorreto, pois assim o motorista percebe que há um espaço e faz a ultrapassagem, colocando o ciclista em risco. Na campanha ficou claro que a maneira mais segura de se pedalar é ocupando a faixa. Veja os vídeos da campanha neste link:

http://vadebike.org/2013/08/campanha-respeito-bicicleta-ciclista-prefeitura-sao-paulo-todos-os-videos/

A campanha foi veiculada no horário nobre em TV aberta durante um mês e circulou na internet.

Foi a primeira vez que tive a sensação clara que alguma coisa estaria mudando e que tinha um gestor disposto a nos ouvir de verdade.

Os 400 km de ciclovias

O próximo passo seria a construção de 400km de ciclovias.

Num sábado do mês de junho fui avisada que seria inaugurada a sinalização de um trecho de ciclovia na Eliseu de Almeida, projeto que ficou engavetado durante anos e resultou em algumas mortes. Nesta gestão foi construído este trecho, com promessa da ligação até o Taboão da Serra até o final do ano pelo secretário de Transportes Jilmar Tatto e pelo subprefeito do Butantã, Luiz Felippe de Moraes Neto. Veja neste vídeo:

No final de semana anterior um trecho no centro de São Paulo tinha sido inaugurado com a presença do prefeito, logo sofreu algumas críticas quanto a execução e mais uma reunião foi marcada com os ciclistas, estreitando mais ainda a relação entre prefeitura/sociedade.

Ainda em junho um trecho de ciclovia na av.Politécnica, que liga a av. Jaguaré até a USP,  foi inaugurado com a presença do Secretário de Transportes Jilmar Tatto, que rendeu essa entrevista coletiva, em que o Secretário reafirmou o compromisso da implantação dos 400km de ciclovia. ” Nós já fizemos 5, faltam 395″, disse na entrevista. Ainda completou: ” Já me disseram que 400km é pouco, mas vamos garantir os 400, porque esses (400km) tem dinheiro “.

Depois da entrevista, o Secretário foi embora pedalando sozinho pela USP, o que me chamou atenção e resolvi acompanhá-lo. Ele estava indo até a ciclovia da Av. Faria Lima pra “dar uma olhada”.  Pra isso atravessou a ponte Cidade Universitária, um problema para ciclistas e pedestres, por causa da velocidade dos carros e da completa exclusão das pessoas nas travessias. Sentiu na pele os problemas vividos por nós todos os dias. Pedalou na contramão, na calçada. Ao tentar subir numa comentou: ” Não tem uma rampa de acessiblidade nessa cidade? Nossa, cadeirante sofre aqui”. Pois é.

O secretario de Transportes de SP Jilmar Tatto pedalando da USP até a ciclovia da av. Faria Lima.

O secretario de Transportes de SP Jilmar Tatto pedalando da USP até a ciclovia da av. Faria Lima.

Ver o Secretário enfrentar essas dificuldades, pedalar na contramão ou na calçada, sendo que o próprio Código de Trânsito não permite, foi um alívio. Explico porque. Muitas pessoas nos criticam por estarmos fazendo essas “contravenções”, mas nunca subiram numa bicicleta para entender que muitas vezes não há outra opção. O secretário entendeu. Rápido. Há um caminho natural do ciclista: as “ciclovias invisíveis”. É natural que quem usa a própria energia do corpo prefira um trecho de contramão a uma ladeira, uma calçada a uma avenida cuja velocidade dos carros é de 60km/h. É natural que o ciclista não desmonte da bicicleta  para atravessar. É simples. O caminho da bicicleta não é o mesmo do carro. Apesar da bicicleta estar inserida no CTB como um veículo e ter prioridade sobre os outros, a sinalização da cidade é exclusivamente feita pensando nos automóveis.  E a impressão que tenho, pelas últimas ações da prefeitura, é de que essa lógica será invertida.

A resistência da sociedade a uma mudança de cultura

E assim, sucessivamente tem sido inaugurados trechos e mais trechos de ciclovias na cidade.

A avenida Paulista, uma via natural e importante de deslocamento para ciclistas, que foi palco de dois episódios tristes para nós ( as mortes de Marcia Prado e Juliana Dias), também entrou na pauta da prefeitura para atender as bicicletas. Quando algum prefeito pensou em enfrentar todas as críticas para cogitar uma ciclovia lá?

Quando o próprio Secretário de Transportes da cidade passou um, dois, três sábados pedalando pra entender a demanda da cidade em relação as bicicletas?

Claro que haverá muita resistência por parte de uma sociedade que foi educada a ser dependente do carro, claro que haverá críticas quanto a mudança no desenho da cidade, por isso é importante que nós, ciclistas, os maiores interessados nessa mudança, pensemos nas críticas aos detalhes da execução. Pela primeira vez temos a cidade em nossas mãos, conforme as palavras do Alex Gomes (https://www.facebook.com/AlexGames?fref=ts):

“Há uma enorme complexidade para elaborar e aplicar essas estruturas, pois elas mexem com um dos elementos que mais geram brigas em qualquer canto do planeta: a divisão do espaço. Nós (ciclistas) somos os principais beneficiários de tudo isso e temos uma chance de ouro nas mãos. Além disso, quem nunca escutou, de amigos de trabalho, familiares ou conhecidos, que gostariam muito de pedalar mas que não tem coragem de encarar as ruas da cidade? Eu ouço isso quase todo dia! É pra eles que eu luto pelo sucesso desse projeto, pois independente de ter ciclovia ou não eu vou pra rua do mesmo jeito.

Somos chatos, muito chatos, reclamamos, fazemos barulho, paramos avenidas, somos insuportáveis até (graças a Deus) e assim devemos continuar, mas que tenhamos consciência da importância quase sagrada do termo prudência. A prefeitura já está tomando porrada pra valer por causa do projeto e se nós, os principais interessados, formos mais um grupo pra ajudar nesse espancamento, tenham certeza que a ideia pode ser sepultada.
Por isso, quando fizer sua crítica, pense, repense (ou mesmo dispense, dependendo do que for falar) o quão ela pode colaborar pra enriquecer o debate e o sucesso do projeto. Talvez não estejam implantando ciclovias como muitos sonham (algumas coisas mesmo eu não concordo), mas temos de pensar no que seria, pelo menos, o mínimo aceitável para que o projeto role.”

Nossas demandas estão sendo ouvidas. A cidade está sendo devolvida ao cidadão. Vou reproduzir parte de outro relato lido no facebook resumindo outros assuntos mostrando que pela primeira vez temos um prefeito pensando na cidade, via Carol Almeida (https://www.facebook.com/carol.almeida.5074):

“Somente ESTA SEMANA, foi anunciada pela prefeitura de SP, leia-se, pelo prefeito Fernando Haddad:

– Uma política municipal de segurança alimentar que vai incentivar a agricultura familiar na Zona Sul da cidade (onde há uma zona rural em SP)

– A transformação da Chácara Jockey (169 mil m² no Butatã) em um grande parque municipal

– A reabertura do Belas Artes GRAÇAS à parceria da prefeitura com a sociedade civil e a Caixa

– Edital da prefeitura exclusivo pra distribuição de filmes

– Construção de uma usina com capacidade de triagem de material reciclado (e com ela São Paulo é agora uma cidade capaz de reciclar mais lixo do que produz)

– Canal aberto pra diálogo com os skatistas da cidade para que a prefeitura possa melhor os picos que já existem e criar novos pontos

– Instalação de contadores de passageiros nos ônibus, para aumentar ou diminuir a frota de acordo com horários e rotas

E eu poderia ainda citar o trabalho diário da prefeitura na instalação dos corredores de ônibus, do trabalho incrível feito pelo Braços Abertos e uma porrada de coisa mais.

São Paulo tem hoje o Melhor. Prefeito. Possível. Claro que ainda há muito a avançar e claro que ele ainda tem muito a aprender. Mas é inegável que temos um homem pensando o coletivo naquele prédio às margens do Vale do Anhangabaú.
Pois bem, este mesmo prefeito tem a pior rejeição de todos os tempos. Segundo pesquisa divulgada pelo Datafolha, os paulistanos preferem Kassab (sim, KASSAB!) a Haddad.”

Ainda acrescentaria os parklets, os foodtrucks, o wi-fi nas praças como outros exemplos de devolução da cidade ao cidadão.

Mas a grande mídia mostra a resistência da população a mudanças. Talvez o paulistano continue achando que o problema do trânsito é o carro da sua frente, mas não percebeu ainda que o motorista que está atrás está pensando a mesma coisa. Alguns falam sobre a má qualidade do transporte público mas nunca entraram num ônibus pra ver. Inclusive justamente quem mora no centro expandido e tem a grande oferta de transporte é quem tem dois carros pra driblar o rodízio.

Defendo o uso da bicicleta porque acho o meio de transporte mais saudável, econômico, rápido e divertido, mas quero deixar claro que depois da melhoria do transporte público ( sim, tem melhorado aos poucos) devido aos corredores de ônibus, também acabei aderindo ao uso dele para deslocamentos mais longos e quando estou com meu filho.

Pra quem duvida que é possível viver sem carro em São Paulo é só experimentar outros tipos de transporte. Não só é possível como muito mais agradável. Quem quiser conhecer uma cidade sem trânsito, experimente deixar o carro em casa. Quem quiser uma cidade menos violenta, ocupe as ruas. Quem quiser ver seus filhos nas ruas com segurança, pense a respeito dessa mudança a longo prazo.

criança na ciclovia

Criança pedala em ciclovia recém-inaugurada na Barra Funda. Foto: Claudio Kerber

 

 

Deixo claro aqui também que não sou petista, mas tenho a impressão de que temos mais do que um político conduzindo a cidade, temos um cidadão. Por isso faço parte da minoria que aprova essa gestão.

Quem quiser ler mais sobre a mudança no diálogo em relação as bicicletas nesta gestão, recomendo esse texto ótimo da Aline Cavalcante escrito para o Bike é Legal:

http://espn.uol.com.br/post/425419_400km-e-agora-fortalecendo-o-apoio-e-a-critica-bike-e-legal?timestamp=1405356940629

 

 

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