A inauguração da primeira ciclovia em ponte e mais uma quebra de paradigma

Nova sinalização na Ponte Casa Verde priorizando pedestres e ciclistas.

Nova sinalização na Ponte Casa Verde priorizando pedestres e ciclistas. Foto: Rachel Schein

Há 10 anos o advogado e professor Odir Züge Jr. sai da sua casa na Serra da Cantareira todos os dias e pedala 19 km até a Rua Augusta, onde trabalha. Durante o primeiro ano fazendo este percurso, Odir perdeu 10 kg.  Mas alguns desses provavelmente se devem a uma certa tensão vivida e relatada constantemente por ele no seu blog http://www.asbicicletas.wordpress.com.

É que pra chegar ate o destino final, Odir precisa atravessar a Ponte das Bandeiras através da Campo de Bagatelle, lugares completamente planejados para automóveis e pouco convidativo para pedestres e ciclistas.

” A Campo de Bagatelle tem entradas e saídas rápidas. Ela é considerada perigosa por muitos motoristas, o que dirá ciclsitas. É difícil atravessar no sentido norte sul ou sul- norte, em razão de entradas e saídas rápidas nas laterais.” – conta Odir.

O sorriso de Odir, ao saber que a proxima ponte sera a " dele".

O sorriso de Odir, ao saber que a proxima ponte sera a ” dele”. Foto: Rachel Schein

A última coisa que o professor esperava era estar neste dia 04/11/2014 esbanjando um sorriso na ponte da Casa Verde, ao lado do prefeito Fernando Haddad ( PT) e do secretário de Transportes Jilmar Tatto, justamente inaugurando a primeira ponte adaptada a pedestres e ciclistas da cidade.

Odir Zudge Jr. entre o secretario de Transportes  Jilmar Tatto e Takedinha Hamilton ( Ciclo  Br).

Odir Züge Jr. entre o secretário de Transportes Jilmar Tatto e Takedinha Hamilton ( Ciclo Br). Foto: Rachel Schein

A Ponte da Casa Verde, que liga a zona norte ao centro cruzando o rio Tietê, é a primeira de doze que sofrerão a mesma mudança: redução da velocidade nas alças e sinalização para facilitar a travessia de pessoas.

Há quase 40 anos pontes e viadutos são um problema para a CET.

Segundo Jilmar Tatto, em conversa com engenheiros e técnicos da CET, há quase 40 anos pontes e viadutos são um problema para a empresa. A solução aplicada? Lombofaixa ( elevação no solo com sinalização adequada que chama atenção do motorista ), redução da velocidade e pintura de solo.  A vermelha para bicicletas e a azul para pedestres. Há até quem vá dizer que… bom, deixa pra lá.

Durante inauguração agentes ajudavam as pessoas na travessia. Foto Rachel Schein

Durante inauguração agentes ajudavam as pessoas na travessia. Foto Rachel Schein

“O que existia era o preconceito ou falta de coragem pra reduzir a velocidade nas alças de medo que fosse atrapalhar o fluxo dos carros.” – afirmou Tatto. “E nós observamos que não é nada disso.  Na verdade é possível atender o pedestre, atender o ciclista e ao mesmo tempo dar segurança pra eles nas travessias de alças de pontes e manter o fluxo normal de carros.” – concluiu.

Screen Shot 2014-11-05 at 9.28.52 AMIsso porque a velocidade média dos carros não é afetada. Segundo um agente da CET o fluxo dos carros é assim sempre: intenso nos horários de pico. De fato a manhã inteira o trânsito estava bem complicado, enfim, daquele jeito que é São Paulo, com ou sem lombofaixa. E no caso, com chuva.

Pontes acessíveis é demanda antiga

No dia Mundial sem Carro, a Ciclocidade estendeu uma faixa na Ponte Estaiada, pedindo “Pontes para pedestres e ciclistas”.

A faixa fazia parte de uma campanha intitulada ” Adote uma ponte“, um mapa colaborativo que pede que as pessoas mandem informações sobre as dificuldades enfrentadas nas pontes e viadutos da cidade.

De acordo com Daniel Guth, da Ciclocidade, a ideia era fazer uma ponte ( com o perdão do trocadilho)  entre o poder público e a sociedade, que sofre diariamente nestas estruturas.  “É uma forma para que elas fiquem o mais fiel possível de acordo com a expectativa e experiência dos ciclistas”. – conta Guth.

Não é a primeira ação de ciclistas pedindo por segurança nas pontes. Em dezembro de 2013 um pequeno grupo de ciclistas fez placas imitando as oficiais com discos de vinil e sinalizou as pontes da Zona Norte.

Em 2012 publiquei um vídeo ( tão amador quanto a cidade naquela época 😉 ) sobre a dificuldade na travessia da ponte Cidade Universitária. É que qualquer ser humano que transite a pé ou de bike pela cidade identifica rapidamente esse problema.

Mas dando uma busca na internet dá pra achar alguns registros sobre essas dificuldades de circulação na cidade feita para carros.

Resultados do planejamento começam a aparecer

Pra quem dizia que não havia planejamento, hoje está mais claro perceber a conexão entre as ciclovias por exemplo. Uma prova disso foi o que uma senhora me disse hoje, quando perguntei onde ficava a ponte da Casa Verde: “É só seguir a ciclovia que você chega lá.”

Pra quem dizia que atrapalhava o comércio, parei pra comprar água num bar no caminho e o dono logo veio me dizer que agora o bar dele ficava visível. ” Antes tinha carro parado aqui na frente o dia inteiro” – comentou Rubens Martins, dono do estabelecimento. Ao lado, a loja acabava de ser reformada para a abertura de uma sorveteria “pra aproveitar o movimento da ciclovia” – contou.

Bar do Rubens, que ficou visível agora, com a ciclovia.

Bar do Rubens, que ficou visível agora, com a ciclovia.

Rubens, dono do bar: " fico mais visivel agora".

Rubens, dono do bar: ” Antes tinha carro parado o dia inteiro”.

Pra quem dizia que tinham que fazer na periferia, lá está sendo feito, e melhor: elas serão conectadas até o centro. Ou seja, o que o carro separou até hoje, a bicicleta vai unir. 🙂

O fato é que as pontes sempre foram excludentes tanto para pedestres quanto para ciclistas. Portanto fazer ciclovias em 12 pontes, ligar a radial leste ao centro através de ciclovias é mais do que uma mudança na via. É uma mudança social, cultural. É incluir, aproximar.  É tornar a cidade integrada, encurtar distâncias. Possibilitar o acesso à cidade por qualquer cidadão. Colocar em prática a ideia da cidade-parque: ciclovias conectadas a praças wi-fi, zeladores de praças, calçadas bem cuidadas, universidades nos CEUs, pontes seguras para pedestres e ciclistas. Pontes unindo e não excluindo. Uma gestão derrubando muros invisíveis da nossa cidade.

E para a alegria de Odir e para ajudar a trazê-lo para o centro todos os dias com segurança, a próxima ponte a sofrer intervenções será a das Bandeiras. Amém.

A arquiteta Suzana Nogueira da CET mostra o projeto das pontes para o prefeito Fernando Haddad ( PT).

A arquiteta Suzana Nogueira da CET mostra o projeto das pontes para o prefeito Fernando Haddad ( PT).

 

 

 

 

 

 

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2 respostas para A inauguração da primeira ciclovia em ponte e mais uma quebra de paradigma

  1. Tata Amaral disse:

    Arrasou! Amei a matéria. Super completa, com links, informativa e tudo. Obrigada.

    Curtir

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