Querido diário, apagaram a ciclovia da Vilaboim

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Querido diário:

Realmente tá bem complicado pedalar em São Paulo nessa época de conquista de espaço! As pessoas não conseguem dividir. Não entendem que elas mesmas podem usufruir das ciclovias. Não querem entender a diferença entre o público e o privado. Ontem apagaram a ciclovia da Praça Vilaboim, em Higienópolis. A prefeitura soltou uma nota dizendo que haverá uma readequação, mas não acreditei não. Que haverá a readequação sim, mas que houve erro de projeto não. Ao contrário dos que muitos pensam, acredito sim que houve um bom planejamento. Ali o que houve na minha opinião, foi muuuita pressão.

Se não é por ali que vamos, por onde será? Será que vão querer que a gente suba a Alagoas na contramão? ( pra quem não conhece a Alagoas é uma piramba que dá medo até de descer, imagina subir). Enfim… não engoli essa não. Um churrascão da gente diferenciada, ou melhor, um coxinhaço cairia bem.

Foto tirada da pagina do facebook do vereador Nabil Bonduki.

Foto tirada da página do facebook do vereador Nabil Bonduki.

Outra coisa que tá mais difícil também é que com a perda de espaço dos carros para as ciclovias, alguns motoristas também perderam a paciência com a gente. Mas hoje posso confessar que fui super calma! Não xinguei ninguém. 🙂 🙂 🙂

Número de quilômetros que rodei: 18km

Quantidade de km com ciclovia: 3 km ( 1,5km ida/1,5km volta)

Quantidade de km sem ciclovia: 15km

Quantidade de horas: uma hora na ida ( com direito e a me perder 2 x, mas calculei o tempo pra isso) e 30 minutos na volta.

Número de pessoas que me xingaram: 3 ( as 3 de dentro de carros).

Número de palavrões que ouvi: uns 15, sendo que uns 10 foram da mesma pessoa. Qual o motivo? Simplesmente por eu existir e estar pedalando ali, na rua, como qualquer outro veículo.

Número de buzinadas que eu levei, avisando “vou passar não interessa se você esta aí ou não”: 4 ( número razoável até pra uma sexta-feira)

Quantidade de carros que ultrapassei: não consegui contar, uma Faria Lima inteira das 9:10 as 9:20 e depois todos os carros da rua Guaraiuva, Pe. Antônio Jose dos Santos  ( Brooklin). Depois fui por ciclorrotas, foi aí que tomei as buzinadas.

Av Faria Lima.

Av Faria Lima.

Quantidade de cheiros bons que eu senti: 3. Ontem choveu e as árvores ficam cheirosas no dia seguinte de manhã.

Ruas por onde eu nunca tinha passado: umas 15 ou 20.

Casas lindas que eu nunca tinha visto: uns 3 casarões antigos de muro baixo no Campo Belo ou nas proximidades (sim, ainda existem essas casas lindas em SP).

Algo que observei: um ônibus verde, sentido Ipiranga, sem faixa exclusiva na rua Guaraiuva ( Brooklin) parado no trânsito com os carros. Não é justo que o busão fique parado junto com os carros.

Pessoas com quem conversei: um motoqueiro que parou do meu lado no sinal e contou sua história de vida em 30 segundos, vários motoqueiros pra quem perguntei o caminho, um senhor a pé que me explicou o caminho pacientemente, um homem com uma criança que me viu numa ladeira quase empinando a bicicleta, mas tiver que descer e empurrar. Comentou comigo que ali era complicado mesmo. Um ciclista, claro, e uma mulher, bom, essa eu tenho que contar a parte.

Eu tava pedalando pela esquerda, cruzando a Roberto Marinho ( porque eu tinha entrado na rua pela esquerda e não tinha conseguido ainda mudar pra direita). Como ali alargava a pista, sinalizei que eu ia continuar reto e “liberei” a esquerda pros carros virarem a vontade. Mas a mulher, o que ela fez? Ela me passou pela esquerda e me fechou. Mas realmente não consigo explicar a manobra que ela fez. Foi assim muito inédita. Pedalando há mais de 3 anos todos os dias, nunca vi nada igual. Depois acelerou, passou um, passou dois, passou o terceiro farol. No quarto, alcancei. (porcentagem de vezes que um ciclista alcança um motorista que tentou atropelá-lo: 99%).

Bati no vidro.

Número de vezes que depois que o motorista tira uma fina de um ciclista, fecha o vidro: 100%

Coisas que ele faz pra disfarçar e fingir que não te viu:

1- mexer no celular: 80% das vezes)

2 – fingir que está procurando alguma coisa no porta-luvas 5%

3- Olhar pro outro lado: 5%

4- Xingar o motorita da frente: 5%

5 – Outros: 5%

ps: esses números são baseados em fatos muito reais, na minha pesquisa diária.

Não xinguei, como disse acima, mas perguntei só por que ela tinha feito isso. Ela acelerou.

Número de pensamentos esquisitos, estranhos, absurdos ou engraçados liberados junto com a endorfina: uns 540 por dia.

Número de coisas sérias que você pensa enquanto está pedalando: uma ou duas.

Coisas boas que você pensa quando está pedalando: umas 352 por hora.

Coisas más: não sei fazer essa conta, depende muito da quantidade de finas, buzinadas ou xingadas que você levou, atrapalhando seus pensamentos em geral positivos.

Fiquei pensando que o comportamento humano se assemelha muito ao dos bichos. Sei lá, em vários  aspectos. Conto num próximo post porque vai ficar cansativo. É, tem sempre muita história pra contar.

ps: só conseguir escrever, ou melhor, transcrever meus pensamentos porque eu cheguei, sentei e escrevi, ainda no calor do pedal. Se eu deixasse esfriar, eu certamente esqueceria de tudo, ou de pelo menos 85%.

ps 2: as fotos são ilustrativas. O celular tava sem memória, a câmera sem bateria, a go pro sem cartão.

ps 3: eu sei que misturei tudo, a ciclovia da Vilaboim com meu caminho até o Campo Belo hoje de manhã, mas é meu primeiro dia escrevendo no diário. Me empolguei.

ps 3: tô na dúvida se eu saio pedalando agora ( pra treinar mesmo, de manhã foi só deslocamento), na tentativa de eliminar parte dos quilos extras ou edito um filminho mostrando o comportamento animal do ser humano que vive enjaulado no carro, como os que cruzei ontem, nessa foto de baixo.  Acho que vou pedalar. 🙂

Av Faria Lima x Gabriel Monteiro da Silva, as 16:30 do dia 13/11, depois da chuva.

Av Faria Lima x Gabriel Monteiro da Silva, as 16:44 do dia 13/11, depois da chuva.

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6 respostas para Querido diário, apagaram a ciclovia da Vilaboim

  1. Casa de Pedra disse:

    Muito divertido seu relato… Também passo por isso todos os dias, talvez um pouco pior, acho que o fato de vicê ser mulher ameniza um pouco essa raiva dos motoristas! Enfim vamos que vamos pedalando por aí… Boa sorte aos ciclistas! (precisamos dela também)

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    • 🙂 olha, se ameniza eu nem imagino o que os homens ouvem todos os dias. porque vou te falar viu? ultimamente, com a invasão das ciclovias, ta bem complicado pedalar fora delas… mas dizem que é normal esse período de transição. Continuaremos pedalando! 🙂

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  2. Angela de Maria disse:

    Querida Rachel, achei ótima a idéia do diário. Agradeço por vc compartilhar conosco tantos dados e sensações.

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  3. Thiago disse:

    Cara, ri muito. Sou ciclista urbano também e me vi nas mesmas situações. Cheguei a seu Diário pelo site vadebike.org. Mas discordo de você quando compara o bicho-homem aos bichos-não-homens. Os animais não humanos sabem dividir os espaços, e normalmente são nossos amigos (os mamíferos são mais amigos ainda). Por isso, não como meus amigos. Mas parabéns pelo diário. Valeu

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