Me mandem pra Cuba mas não mexam com as ciclovias.

Bicicletada a favor das ciclovias. Foto: Thiago Bennichio.

Bicicletada a favor das ciclovias. Foto: Thiago Bennichio.

Ei, desculpe! Vou roubar 2 minutinhos da sua atenção mas é por uma boa causa: a bicicleta.

Foi em 2011 minha primeira Bicicletada. Tinha me separado e na divisão dos bens fiquei sem o carro. Foi tipo “ok, mas o carro fica comigo”! Nem discuti. Mas por sorte morava num bairro que foi feito pra carros. Sem carro você não se locomove. Não, pera.

Depois de muito tempo andando a pé, resolvi sair de bicicleta. Meio sem jeito, meio com medo, entre ruas e calçadas, lá estava eu, jogada no trânsito louco de São Paulo, frágil em todos os sentidos, numa fase bem difícil na vida, mas surpreendentemente feliz.

E eu só queria pedalar! E ler sobre isso. E falar sobre isso. Já não conseguia simplesmente sentar numa mesa de bar pra falar de cinema por exemplo ( meu segundo assunto predileto, mas que naquele momento era impossível).

E entre minha primeira vez de bike na cidade e minha primeira Bicicletada foram tipo dias. Foi no Dia Mundial sem carro, 22 de setembro. No dia anterior tinha ido num passeio nem lembro qual.

Sentei ali na Praça do Ciclista sem conhecer ninguém e logo veio o Paulinho conversar comigo. Minutos depois daquele desconforto, já me sentia acolhida. Fomos pra 23 de maio, passamos na marginal Tietê, Ponte Estaiada. Pedalamos muito, mas olha que curioso: não me sentia cansada. Me sentia feliz. Poderosa. Radiante. Plena.

Voltei pra casa as 2 h da manhã sozinha, mas impressionantemente sem medo.

A Bicicletada em defesa das ciclovias

Isso pra dizer que fazia tempo que eu não curtia tanto uma Bicicletada como a de 19 de março em defesa das ciclovias.

Se não me engano foi Chris Carlsson, o criador da Critical Mass, que disse que a Bicicletada ou a “Critical Mass” vai se reciclando, que as pessoas vão mudando e que e é natural que isso aconteça. O meu ciclo tinha passado. No início era certo que eu estivesse lá toda a última sexta-feira do mês. Como era certo que eu pedalasse todas as terças e quintas com grupos de pedal em São Paulo.

Pra alguns a bicicleta é só esporte. Conheço várias pessoas que SÓ pedalam pra se exercitar. Pra outros lazer, aos domingos. Pra outros um ato transformador.

Pra mim, a bicicleta chegou arrebentando. Veio com tudo. Virou tudo isso e mais um pouco. Virou minha profissão,meu estilo de vida, esporte, lazer e até deslocamento. rs.

479096_3633432907020_156770372_o

Foto: Rachel Schein

 

Conto isso por que nesse dia 19 de março me vi em muitas das pessoas que estavam presentes na bicicletada – marcada rapidamente pelo facebook após uma promotora tentar barrar as obras da ciclovia da Av. Paulista, com certeza nossa maior conquista desses últimos anos.

A tarde alguns ciclistas estiveram na coletiva de imprensa dada pela promotora no Ministério Público e entrou uma menina de óculos pela porta e deu um depoimento muito sincero sobre o que é pedalar na cidade de São Paulo. ” Eu pedalo há 10 meses! Comecei a pedalar por causa das ciclovias!!!” –  disse Carla, batalhando pelo seu espaço na cidade.

Lembrei da primeira vez que fui numa audiência pública ( sim, a bicicleta te leva a uma audiência pública) e falei no microfone, muito nervosa, mas com muita sinceridade. E depois alguém veio me agradecer, que no meio de tanta política aquele depoimento tinha sido um alívio.

277218_3774769800354_2130170792_o

Na Bicicletada Nacional, na Rio + 20 em 2012

Não mexam nas ciclovias!

O erro da promotora e de muitos que nos atacam é tratar a bicicleta como meio de transporte. E além disso, dizer que não é transporte de massa. Como não? Paramos a Paulista ontem. Vamos parar quantas vezes forem necessárias. Tá, fui contraditória, mas tudo bem. Afinal é um meio de transporte ou não? Depende do significado que você dá a ela. Tem gente que usa como enfeite. Tem gente que usa como utensílio de garagem. Outros para transformar, para revolucionar.

As ciclovias que estão sendo construídas pela cidade podem não ser padrão Dinamarca, mas quem disse que quando foram construídas lá eram padrão Holanda? Quem disse que em Nova York não tem buracos nas ciclovias? E pasmem, pedalei em Buenos Aires em muuuuitas calçadas compartilhadas.

“Não tem bicicletário nos lugares”, disse ontem no seu discurso a promotora. Oi? Começamos uma revolução há alguns meses e quer que tudo ja esteja no lugar. Calma, isso ainda será o próximo passo, e olha, pode ser que demore, viu? Ainda mais com gente tentando atrapalhar.

No filme “Bike Versus Cars” apresentado no 4º Fórum da Bicicleta em Medellin, o Ricardo Corrêa, arquiteto da Tc Urbes mostra o projeto de uma ciclovia na av. Paulista e diz pra Aline, que protagoniza o filme: “Olha, se não fizerem ( a ciclovia na Paulista) em 20 anos não fazem nunca mais”. Bom, foi uma das frases que me deixou arrepiada e me fez chorar. ( O filme é emocionante e imperdível, vou escrever sobre ele em outro post, sem estragar a surpresa, prometo).

Imagina, 20 anos era o que imaginávamos que levaríamos pra chegar num modelo de cidade que nossos vizinhos (Buenos Aires, Medellin, Bogotá, Santiago) começaram há pelo menos 10. Só pra ter uma ideia de quanto isso parecia longe da nossa realidade. Mas ufa, temos nosso Peñalosa, que independente do partido político, está atendendo nossas demandas.

526262_4054983805529_463428329_n

Na inauguração da ciclofaixa da Av. Paulista fiz essa ” arte”, pedindo ciclovia de verdade. Arte: Rachel Schein

A ciclovia da av. Paulista é a nossa maior conquista, sem sombra de dúvidas. Perdemos 3 amigos lá. Quando a Julie morreu, toda vez que eu deixava meu filho na escola ( de bicicleta), ele me perguntava pra onde eu ia naquele dia. Se eu dissesse que ia passar na Av. Paulista, ele não queria entrar na escola. Pedia pra eu prometer que não ia passar por lá. Entende a dimensão da coisa?

Espero que daqui a 30 anos as pessoas fiquem admiradas:  “mas como assim, morreu andando de bicicleta aqui na Paulista?” ou “como assim, morreu andando de bicicleta em São Paulo?”

Por isso eu acho que a doutora Camila deveria pedalar. Acho que o Matarazzo deveria pedalar. Pra entender a bicicleta tem que pedalar. E pra entender porque em audiência pública sempre tem um ciclista, tem que pedalar.

Apesar de ser um meio de transporte individual ( e não só isso) é o que mais te faz pensar no coletivo. É o meio mais revolucionário que eu conheço.

Portanto, me mandem pra Cuba, manifestem-se do jeito que quiserem, me xinguem nas ruas, mas por favor NÃO MEXAM NAS CICLOVIAS.

Obrigada!

 

 

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Me mandem pra Cuba mas não mexam com as ciclovias.

  1. Andrew Oliveira disse:

    Que texto lindo! Lágrimas, emoção, feliz …
    (te admiro)

    Curtir

  2. Lia Montagner disse:

    Parabéns pelo texto e pela luta, estou torcendo por vocês, embora eu não pedale. E não pedalo por muitos motivos, não sei andar de bicicleta, nunca tive quando criança, pois meus pais eram muito pobres para um “luxo” desses (naquela época tudo era muito difícil). Na juventude, eu consegui depois de muitas quedas me equilibrar em uma, mas o medo dos carros me fizeram desistir. Acho que eu não teria coragem de voltar à bike sem uma ciclovia/ciclofaixa – não sei bem a diferença. Entendo, entretanto, que é o veículo que mais se preocupa com o outro – menos poluição, menos carros nas ruas, mais espaço, menos riscos. Boa sorte.

    Curtir

    • Obrigada Lia, vc conhece o “Bike Anjo”, que ajuda pessoas a começarem a pedalar? Tanto a se equilibrar na bicicleta como a perder o medo de andar nas ruas. ( mesmo com muitas ciclovias alguma parte de rua a gente sempre acaba pegando, isso é normal em qualquer cidade). Todo último domingo do mês tem vários voluntários na Praça dos Arcos, ali na esquina da Consolação com a rua Minas Gerais (estação Paulista ou Consolação do metrô). Tenta ir no próximo domingo. Você não vai se arrepender. Ah, e eles tem bicicletas para emprestar! bjs

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s