Meu relato sobre o horror que São Paulo viveu neste dia 12/01.

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Policia cerca manifestantes. Foto: Rachel Schein

Ontem, dia 12 de janeiro, fui encontrar alguns amigos ciclistas na av Paulista para apoiar o MPL, que luta pela revogação das tarifas do transporte público em São Paulo. A ideia era fazer algumas fotos no começo e descer atrás da manifestação, afinal falar sobre mobilidade, apesar de defender o uso da bicicleta, é falar sobre o direito de escolha do cidadão pelo transporte que mais lhe convém, é ter a opção e não sofrer com a  falta dela. R$3,80 não me parece uma opção, aliás nem R$3,50.

Mas o direito de ir e vir do cidadão foi tolhido. De todos, inclusive o dos que só estavam tentando voltar pra casa.

Cheguei por volta das 18:30, nos reunimos na Praça do Ciclista e ficamos lá conversando enquanto as pessoas terminavam de montar os cartazes e se organizar para a marcha, que desceria ou em direção ao centro ou ao largo da Batata ( eu ainda não sabia qual seria o trajeto).

Confesso que aquele cordão de isolamento da PM na rua Haddock Lobo me deixou bem assustada. Claro, a intenção era essa. Intimidar as pessoas para enfraquecer o movimento. Podia-se passar pro outro lado antes de começar, mas não podia acessar a Praça do Ciclista por lá. As pessoas que tentavam voltar pra suas casas eram obrigadas a darem a volta pela al. Santos. Claro, depois entendi. Eles estavam isolando o local e cada um que estivesse lá estaria sujeito a ser espancado, levar bombas de gás, etc. Pra imprensa e para a população, olha quanta bondade. A PM  estaria “protegendo” a população. De quem? Deles mesmos.

Começou um batuque lá pelas 19 h, tudo tranquilo e organizado, as pessoas ainda não tinham começado a andar e de repente boooooom. Uma, duas, dez, cem bombas de gás sendo lançadas, vindas da Consolação em direção a Paulista. Começou a confusão, foi tudo bem rápido. Bicicletas enganchadas umas nas outras, todo mundo correndo pra fugir das bombas e o cerco  da polícia impedindo as pessoas de passarem. Uma emboscada.

Vale ver esse video pra entender a violência gratuita da PMSP.

ou este:

 

Não tivemos alternativa a não ser “invadir” uma garagem da av. Paulista. Sim , estávamos cercados. Os seguranças do estacionamento fechavam o portão na nossa cara, mas estávamos em umas 40 pessoas, desesperadas, forçamos para abrir. Depois de muita confusão dentro do estacionamento, conseguimos explicar que não estávamos lá pra fazer nada, apenas pra nos proteger.

 

O cheiro do gás era forte. Eu tava com uma faixa preta no cabelo e coloquei no nariz e na boca. Ainda comentei: ” Olha, virei um black bloc”. A polícia me fez tampar o rosto pra me proteger, entende?

Deixei a câmera ligada enquanto pensávamos em como conseguiríamos sair de lá.

Depois de algum tempo ( não sei dizer quanto), as bombas pararam e conseguimos sair. Na porta do estacionamento, vi um vaso quebrado. Comentei com o segurança: ” olha ai, depois vão dizer que vândalos quebraram o vaso, mas você viu o que aconteceu, né?” Ele concordou com a cabeça.

Cheguei em casa, lá pelas 20:30 e recebi um telefonema. Era minha tia, de 80 anos querendo saber se eu estava vendo televisão, porque tinham ” invadido” o Mackenzie. Expliquei pra ela que não estavam invadindo lugar nenhum. As pessoas, no seu direito de se manifestar, que está na Constituição, estavam apenas tentando se proteger da polícia.

Todo aquele medo que eu senti ontem, me fez questionar o tipo de regime que vivemos. Essa ação da polícia não é algo aceitável. Isso não é uma democracia. É ditadura.

Comecei a ler todas as coberturas pela grande mídia. ” Atos de vandalismo no Instituto Cervantes”. Veja o ato de ” vandalismo” aqui:

 

” Haddad pede mediação do Ministério Público para evitar violência entre manifestantes e policia”

http://brasileiros.com.br/2016/01/prefeitura-pede-mediacao-ministerio-publico-para-evitar-violencia-entre-manifestantes-e-policia/

Perceberam o gravíssimo erro no título?

NÃO HÁ VIOLÊNCIA ENTRE MANIFESTANTES E POLÍCIA. A VIOLENCIA VEM DA POLÍCIA.

Nao há confronto. Há abuso de poder.

E Haddad, um parenteses, cá entre nós, aumentar a tarifa em ano de eleição? E a explicação da prefeitura quanto ao aumento da tarifa?

Depois, pra completar, vi essa reportagem sobre a compra de tanques de guerra pelo Governo do Estado.

Diálogo pra que? O lance é gastar 30 milhões de reais pra comprar tanques de guerra. Melhor aplicar o dinheiro assim do que melhorar o transporte e abaixar o preço do bilhete, né? Afinal pra que serão usados esses tanques? Pra “proteger” a população? Nojo.

Quem quiser acompanhar tudo o que tá rolando nas manifestações sugiro seguir a página dos jornalistas livres.

 

Amanhã, dia 14 de janeiro, terá um novo ato. Na página do facebook do MPL há dois locais de concentração: Largo da Batata e Teatro Municipal.

https://www.facebook.com/events/938398952909416/

E que essa atitude da policia faça fortificar o movimento, como aconteceu em junho de 2013.

 

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Uma resposta para Meu relato sobre o horror que São Paulo viveu neste dia 12/01.

  1. TELMO KOTLHAR disse:

    Peraí, quem paga a passagem não é o patrão, ao fornecer o obrigatório vale-transporte? Pois então ele é quem deveria estar batendo panela nas ruas!!

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